Transparência e Governança

 
  • Increase font size
  • Default font size
  • Decrease font size
notícias Bava, o executivo que presidiu a PT e comanda a Oi


Bava, o executivo que presidiu a PT e comanda a Oi

15/07/2014 às 05h00

Valor Econômico - por Graziella Valenti | De São Paulo

A expectativa é que esta terça-feira defina mais que o futuro dos € 897 milhões aplicados pela Portugal Telecom (PT) no Grupo Espírito Santo (GES). Estão em jogo a perspectiva de governança da Oi e, potencialmente, a estrutura societária da CorpCo - companhia que soma Oi e PT. E ainda mais: o currículo de Zeinal Bava, que assumiu a presidência da Oi para promover a virada financeira e operacional do negócio, em junho do ano passado. Egresso da PT, onde fez fama internacional, ele veio também para promover a integração das empresas, que juntas têm mais de 100 milhões de clientes em três continentes e receita operacional estimada em R$ 37 bilhões.

Em Portugal, onde construiu sua fama como executivo, é conhecido como "engenheiro Zeinal". No mercado financeiro, investidores e analistas lhe atribuem adjetivos superlativos para suas habilidades profissionais, como "mágico".

Moçambicano, com família original da Índia, Bava é engenheiro eletrônico, formado pela University College of London. Antes de ir para o grupo PT, passou por instituições financeiras como Warburg Dillon Read, Deutsche Morgan Grenfell e Merrill Lynch. Finanças e mercado de capitais, portanto, são zonas de conforto para esse engenheiro.

Chegou à PT em 1999 pelas mãos de Eduardo Martins, executivo de carreira no setor público de telecomunicações de Portugal, que se desligou do grupo em 2001. Mas foi em 2006 que ganhou projeção, quando ocupava o cargo de diretor financeiro e defendeu, ao lado de Henrique Granadeiro, a empresa de uma oferta hostil pela Sonaecom. Assumiu a presidência executiva em 2008, cargo que ocupou até junho do ano passado, ao conduzir o futuro da Oi.

O tamanho do desafio que Bava terá de administrar para si e para a Oi dependerá de duas questões centrais: a solução financeira para os quase R$ 3 bilhões aplicados pela PT no Grupo Espírito Santo e seu impacto na reorganização da Oi. O saldo negativo mínimo do polêmico episódio será o aumento da preocupação com os mecanismos de governança do grupo resultante da fusão Oi/PT e, portanto, com o sucesso da reestruturação em todas as suas frentes - societária, operacional e financeira. Bava tem boa relação com Ricardo Salgado, ex-presidente do BES. Trunfo no passado, isso hoje é um incômodo.

As informações dadas até o momento indicam que € 897 milhões foram aplicados no GES entre a finalização do laudo que avaliou a PT em R$ 5,7 bilhões - para a combinação com a Oi - e a oferta pública global em que a operadora brasileira levantou R$ 8,2 bilhões com investidores - captação que foi conduzida pessoalmente por Zeinal Bava.

O intervalo ajuda na tentativa dos controladores da Oi e da PT de blindar Bava desse episódio. Tal esforço pode ser percebido na divulgação de informações sobre como seria historicamente difícil a relação com Henrique Granadeiro, presidente da PT, desde que Bava veio para a Oi, e sobre como os acionistas da Telemar Participações - grupos La Fonte (Jereissati), Andrade Gutierrez e BNDES, além de grandes fundações - têm se portado no episódio atual.

São os sócios brasileiros, e não Bava, que estão mostrando publicamente o desejo de revisão nas condições de combinação de Oi e PT - visando reduzir a participação dos acionistas vindos de Portugal na futura CorpCo de 37% para cerca de 20%. E são eles também que ecoam a possibilidade de o assunto ser resolvido por vias judiciais, caso falhem as negociações.

Na visão dos principais acionistas, assim como na dos investidores de mercado, Bava ainda é a principal aposta para o sucesso da reestruturação da Oi - em especial uma virada operacional no negócio, mas que precisa vir acompanhada da recuperação da credibilidade da companhia em todas as esferas. Daí, a preocupação em isolá-lo no episódio.

 

Além de reinventar a PT e colacá-la, a despeito de seu de tamanho, na elite internacional do setor, Bava também conduziu a negociação para a venda dos 50% que o grupo tinha na Vivo para a então sócia Telefónica, por € 7,5 bilhões. Foi a partir daí que as palavras "mágico" e "malabarista" surgiram entre seus talentos.

Num munto em que as informações circulam com grande velocidade e há pouco tempo para "profundidade", Bava costuma impressionar os ouvintes pelo conhecimento e capacidade de argumentação quando os assuntos são telecomunicações e finanças. Sabe o valor do "corpo a corpo" - tanto para a confiança de investidores como na liderança operacional.

Num ambiente em que nenhuma companhia brasileira foi ao mercado de ações, levantou R$ 8,2 bilhões para a Oi - após dispensar um cheque de US$ 1 bilhão de um grande fundo que queria mudanças na composição do conselho de administração da futura companhia, que ele não podia garantir.

Além do elevado desconto atribuído às ações da Oi, seu nome e seu discurso foram um chamariz para os investidores. E depois de rodar o mundo para falar com investidores, Zeinal chegou ao Brasil e passou três semanas visitando as regionais da Oi - de Belém a Porto Alegre, passando por 17 cidades.

A confiança na competência operacional vem de uma aposta arriscada - e bem sucedida - que a PT fez após a oferta da Sonaecom e a cisão da PT Multimidia, a então subsidiária de cabos. A tele portuguesa apostou na fibra óptica e levou a infraestrutura para dentro da casa dos clientes. Tornou-se, com isso, um modelo de integração: telefonia, TV e internet. Contou, na empreitada, com a enorme vantagem do tamanho de Portugal e do fato de deter os dutos subterrâneos, já prontos, para a fibra.

Chama atenção que a reputação de Zeinal foi construída sem que tenha deixado os investidores eufóricos com o bolso - e sem que a PT tenha reduzido de forma definitiva a alavancagem financeira.

A companhia, antes da cisão da PT Multimidia, valia perto de € 10 bilhões em 2006. Quando deixou Portugal para assumir a Oi, a PT valia € 2,8 bilhões - valor que despencou a € 1,6 bilhão após a divulgação da aplicação no Grupo Espírito Santo. A relação entre dívida líquida e lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda), saiu de 1,5 vez para 4,2 vezes - na mesma comparação de períodos, lembrando que o caixa ficou € 7,5 bilhões mais gordo após a venda da Vivo, em 2010.

Com o ceticismo sobre a Oi ganhando força novamente, o que se comenta é que Bava teria dois caminhos. Pode tanto ter muito sucesso na recuperação como falhar completamente. O desfecho, em ambos os casos, seria o mesmo: a compra da nova Oi por uma gigante internacional.

 

Leia mais em:

 


Copyright © 2019 Transparência e Governança. Todos os direitos reservados.
contato
___by: ITOO Webmarketing