Transparência e Governança

 
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Pedro Rudge


Pedro Rudge

1 - Como gestoras e fundos de ações podem ajudar a melhorar a governança das empresas em que investem?

Entendo que existem alguns caminhos possíveis para alcançar tal objetivo. Destaco dois que considero os mais importantes. O primeiro é a conscientização por parte dos gestores de fundos que os mesmos têm um dever fiduciário perante seus cotistas e por isso precisam ter uma postura de participação ativa e acompanhamento das decisões estratégicas mais importantes das companhias em que investem. Essa interação mais próxima deveria se dar através da participação nas Assembleias Gerais bem como através de um relacionamento próximo aos administradores das empresas, sejam eles diretores ou conselheiros. Entendo que tão importante quanto o primeiro ponto, seria os investidores atribuírem um maior peso à (falta de) Governança Corporativa (GC) no momento de avaliar a possibilidade de investimento. Ou seja, atribuir um componente de risco maior naquelas empresas que não apresentam regras mínimas de transparência e GC e por isso, estarem dispostos a pagar um preço menor por esses ativos. E no caso inverso, estando dispostos a pagar um premio por aquelas empresas que tratam seus acionistas com respeito. Importante estar claro que esse comportamento deveria ter um baixo cunho ideológico e sim estar baseado na simples e básica noção de preservação de capital e tratamento justo e equitativo.

2- A participação de fundos em assembleias ainda é, em geral, baixa.  Por que?  Como melhorar isso?

Atualmente os fundos de investimentos, com exceção de alguns poucos, não têm o costume de participar assiduamente nas Assembleias Gerais das empresas investidas. Isso se deve não somente à questão cultural mencionada acima, mas também à estrutura de capital das empresas listadas em nossa bolsa. As empresas brasileiras têm em sua grande maioria a figura de um controlador definido, ou seja, um acionista que detém a maioria do capital votante (mais do que 51% das ações ordinárias), fazendo com que as decisões não precisem realmente serem debatidas nas Assembleias. Para dificultar ainda mais, tem a burocracia e os elevados custos envolvidos no processo de se fazer representar nestas reuniões.
Algumas iniciativas recentes na direção correta vêm tentando minimizar tais custos e ao mesmo tempo incentivando a participação dos acionistas nas reuniões. Dentre elas, acho importante destacar (i) a adoção da possibilidade de voto eletrônico, a qual necessitou mudanças regulamentares (CVM); (ii) as empresas adotando uma postura mais ativa na atração de acionistas seja através da disponibilização de procuradores para representá-los, seja através da confecção de detalhados “Manuais de Assembleia” sendo disponibilizados com antecedência a fim de esclarecer todos os pontos a serem discutidos nas assembleias e em alguns casos chegando até a incluir recomendações de voto vinda dos conselheiros; (iii) a adoção do Código Anbima de Regulamentação e Melhores Práticas para Fundos de Investimento (http://www.anbima.com.br/mostra.aspx/?op=o&id=101) onde os gestores precisam disponibilizar em seus sites uma clara Política de Exercício de Voto em Assembleias Gerais.
Por fim, um ponto crucial ainda a ser alcançado é uma maior demanda por parte dos cotistas dos fundos para que seus gestores adotem uma postura participativa. O entendimento por parte do “dono do dinheiro” que uma maior participação de seu gestor é benéfico e necessário para uma melhor performance de seus investimentos. Preferindo assim gestores “ativos” àqueles que não participam da vida societária de suas empresas.

3 - Iniciativas de melhoria nas regras de governança de empresas do Novo Mercado foram rejeitadas pelas próprias companhias.  Por que ?  Como incentivar companhias a aumentarem a transparência e a governança?

Foi perdida uma oportunidade de ouro para que as empresas experimentassem um novo salto de GC. Infelizmente, nem todos os acionistas foram chamados a discutir e decidir tais mudanças. O que seria uma demonstração clara de uma boa GC. Tal discussão ficou restrita aos controladores e conselheiros de administração. Dada a importância do assunto, o mesmo deveria ter sido submetido à uma Assembleia onde todos os acionistas deveriam ter debatido.
As empresas preferiram adotar uma postura cômoda, com uma visão que não precisavam progredir. Temos muito a caminhar nesse assunto. Cabe agora, aos acionistas dessas empresas passar essa mensagem e deixar claro que uma melhor GC é positiva para todos.
Exemplos práticos de empresas fazendo e oferecendo mais do que a Lei ou o Regulamento dos Níveis de Governança da Bovespa requerem e sendo por isso reconhecidas pelos investidores através de múltiplos mais elevados quando comparados aos peers por essa diferenciação, mostrará que eventuais custos de curto prazo são mais do que compensados pelos benefícios duradores.
Na medida que o número de empresas com capital disperso (corporations), sem a figura de um controlador, cresça a questão de GC torna-se um fator chave de segurança dos acionistas.


Perfil

Pedro Rudge

Pedro Rudge é sócio fundador da Leblon Equities, uma gestora de recursos independente, 100% focada em ações brasileiras (listadas e não listadas). Pedro tem 15 anos de experiência no mercado acionário brasileiro. De 2004 a 2008, Pedro trabalhou na Investidor Profissional como membro da equipe de investimentos e em 2006 tornou-se sócio. Foi responsável pela estruturação de veículos de investimentos e análise de governança corporativa. De 2002 a 2004, Pedro trabalhou no Bradesco-Templeton, onde foi analista senior focado nos setores de telecom e bens de capital e esteve pessoalmente envolvido em analisar, conduzir e desinvestir diversos investimentos do fundo fechado F.V.L. De 1996 a 2002, Pedro trabalhou na Latinvest Asset Management, uma empresa especializada em mercados emergentes, onde ele teve a oportunidade de iniciar sua carreira como trader e se tornar um dos gestores do fundo de ações. Pedro atuou como membro de conselhos fiscais de empresas como Empresa Brasileira de Compressores S.A. -Embraco (subsidiária da Brazilian Whirlpool), Tele Nordeste Celular Participações S.A. (TIM Nordeste), Trafo Equipamentos Elétricos S.A., Renner Participações S.A. e Globex S.A. Ele é graduado em economia pela Faculdade Candido Mendes.

 

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